Na semana passada falamos aqui no Linha Defensiva sobre um estudo que comprovou que a pirataria pode ser de grande ajuda para a redução das taxas de analfabetismo, contribuindo para a melhora da posição dos países no Índice de Desenvolvimento Humano. O foco do artigo anterior foi a pirataria na indústria fonográfica e agora irei falar de seus efeitos na indústria do audiovisual.

Um sonho de consumo que perdurou por muito tempo em minha adolescência foi o de ter um daqueles videocassetes com dois decks, em que era possível gravar de uma fita para a outra. Não sou tão velho assim, mas até pouco tempo atrás os sonhos de consumo duravam mais do que hoje — a “obsolescência programada” não dominava o mercado e as coisas duravam mais.

Pois bem, o meu grande objetivo na época era o de gravar a primeira trilogia de Star Wars e tê-la só para mim. Eu queria ter o privilégio de vê-la quando quisesse e integralmente, sem me render à tesoura dos canais de TV que não tinham dó dos fãs e picotavam os filmes para que o tempo deles encaixasse em sua grade de programação.

Nunca cheguei a possuir o tal videocassete. Na realidade demorei muitos anos para ter um videocassete comum. Sou filho de um motorista de ônibus e a virada dos anos 80 para os 90 eram tempos em que as contas nunca fechavam no orçamento das famílias de minha classe social.

Só fui ter a trilogia Star Wars muitos anos depois, quando um software de P2P permitiu que se compartilhasse de tudo na internet. Na perspectiva de muita gente eu cometi um crime. No regime estabelecido na ficção, criminosos também eram Luke e Leia Skywalker, que queriam livrar a galáxia da tirania do Império.

You need guts to wait for GoT

Semana passada tivemos um dos momentos mais aguardados da história da TV: a HBO apresentou o primeiro episódio da quinta temporada de Game of Thrones. No dia anterior, quatro episódios vazaram na rede e conforme reportagem do Mashable, os vídeos eram de baixa qualidade e é bem provável que fizessem parte de um lote enviado para jornalistas. Estes vídeos tinham originalmente uma marca d’agua para a proteção das cópias de maneira que, caso os vídeos vazassem, seria possível identificar a origem. Bastou apagar a marca d’agua e tudo foi para o espaço.

Depois de muita gente ridicularizar a mecanismo de antipirataria da HBO, um pesquisador francês apresentou algumas outras técnicas mais inteligentes para identificar “vazadores” no futuro.

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(Foto: Reprodução)

No mesmo domingo as pessoas passaram a compartilhar imagens nas redes sociais dizendo que preferiam esperar a série passar na TV, assim como casais que guardam a virgindade até o casamento. Ou seja, baixar ou não os quatro episódios da série se tornou um tema moral.

De qualquer maneira, a HBO não está mesmo muito preocupada como o vazamento. O próprio CEO da Time Warner, grupo do qual a HBO faz parte, disse ao portal de finanças Bidness Etc que a pirataria de episódios de Game of Thrones “é melhor que um Emmy”. O presidente da HBO, Michael Lombardo também colaborou com essa afirmação, dizendo à Entertainement Weekly que a pirataria é um complemento ao êxito da série e com certeza não afeta a venda de DVDs.

Ou seja, da mesma maneira que o sexo antes do casamento não é um indicador determinante da felicidade futura de um casal, baixar os episódios de Game of Thrones vazados na rede não impede o lucro das megaempresas envolvidas nesse projeto. O combate à pirataria, pelo menos nesse caso, é mera formalidade.

Isso posto, eu confesso: não sou um heavy downloader, mas nunca vi um episódio sequer de Game of Thrones na HBO, porque não vejo TV há 3 anos. Fiz o download dos 4 episódios da quinta temporada e farei de todos os outros, caso não tenha outra alternativa.

Cinema

Mas é muito fácil falar de pirataria de filmes e séries de sucesso.

E no caso de filmes que podem ser muito bons mas possuem pouca expressão no mercado cinematográfico?

Esse caso é mais difícil, mas penso que a própria tecnologia pode apontar caminhos para a solução do problema.

Assim como disse em meu artigo anterior sobre música, é preciso estabelecer limites conceituais entre o ato de fazer downloads de filmes e séries e comprar DVDs dos “pirateiros”. A atividade dessas pessoas é muito parecida com a do contrabando e em minha opinião não deve ser estimulada, pois a busca do conteúdo é orientada unicamente pelo lucro — diferente daqueles que somente querem ver um filme em casa sem ter que pagar por isso.

Fazer um filme é algo que requer muito esforço, sobretudo para aqueles que não têm o privilegio de captar grandes investimentos. Nada mais justo que as pessoas envolvidas na produção, distribuição, divulgação e exibição dos filmes sejam remuneradas pelo seu trabalho. Entretanto, está claro que a disseminação de tecnologias que possibilitaram a pirataria em larga escala também podem ser usadas para desenvolver novos modelos de negócio que remunerem todos que trabalham nessa cadeia.

O Netflix é hoje, conforme reportagem do Estadão, uma empresa com capital maior que grandes redes de TV americanas, como a CBS, e já conta com mais de 62 milhões de assinantes em todo o mundo. Imagine um determinado filme argentino (eles fazem um cinema ótimo) que não entrou no circuito dos cinemas, que vai demorar pelo menos um ano para ser exibido em algum canal de TV e sabe-se lá quando estará disponível em DVD. Em casos como este, o que os combatentes da pirataria querem? Que as pessoas fiquem sentadas esperando?

É claro que não vão esperar. Vivemos em um momento do capitalismo em que o ciclo de produção e consumo precisa ser encurtado para a abastecer a cultura de inovação. As empresas de mídia via streaming entenderam o momento e ofereceram essa opção onde havia um vácuo que somente privilegiava o “pirateiro”.

Por outro lado, a tecnologia para salas de cinema também se modernizou, revitalizando a sua mágica, de modo a oferecer mais conforto e recursos tecnológicos para o público, seja para os cinéfilos ou para aqueles somente interessados em ver blockbusters no IMAX.

Ou seja, combater a pirataria é importante, mas tendo em mente que para a maioria das pessoas, a pirataria é sempre a segunda opção. Mais que incriminar os outros, é importante oferecer “primeiras opções” acessíveis. E é claro que verei o novo episódio de Star Wars no cinema!

Semana que vem continuaremos nesse percurso falando da pirataria nos games.

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Escrito por kbralx

Profissional com vinte anos de experiência na área de tecnologia, sendo que os últimos onze dedicados à segurança da informação, atuando em empresas de serviços, telecomunicações e do mercado de cartões. Presta consultoria a lojistas espalhados pelo Brasil na proteção de seus ambientes interagindo com as mais variadas plataformas tecnológicas e realidades regionais. Possui formação em Computação Forense pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Organizou o livro "Trilhas em Segurança da Informação: caminhos e ideias para a proteção de dados" em parceria com Willian Caprino e faz parte do staff da conferencia de segurança You sh0t the Sheriff.

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